Eles vieram. Os dois. Pequenos, arrastando os chinelos, arrastados, naturais.
Não havia receio, renúncia ou angústia no que faziam. Era normal, comum, usual.
Os dois chegaram, calmos, cada um em um canto da loja e pediram ao vendedor um pouco de carne. Era um açougue.
O homem, sem tirar os olhos do trabalho, respondeu que "não tenho nada hoje, filho".
Eles saíram, sem desapontamento, sem esperanças. Comum.
De maneira também natural, um deles levou as duas mãos juntas, em forma de concha, até a boca e soprou, deixando escapar um som entre elas. O outro olhou, sorriu admirado.
"Como fez isso?" E tentou copiar. Não sabia. Eu também não. Tive infância, mas não sabia.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
domingo, 27 de novembro de 2011

Hoje, peguei gota salgada que cai do olho e transformei em mar salgado para navegar o coração.
Tem horas que coração da gente precisa sair de onde está e ir para o além mar.
Hoje, levei alma para o mar, querendo molhar os pés nas espumas das ondas e deixar um arrebol grande na tristeza.
Tentei fazer água salgada que cai do olho virar espuma passageira que vai embora.
Tentei sorriso virar mar: grande e profundo. Pra desaguar lá dentro da gente.
Hoje, mesmo de corpo longe, eu abracei de corpo todo - de órgãos - pra deixar seu coração surdo do resto do mundo.
Hoje, procurei soprar com vento toda a poeira que impede de respirar.
Hoje, junto do mar, trouxe você comigo para desatar o seu peito, liberar o seu pulmão. Junto do mar, as águas salgadas se misturam. Água de uma, vira água de outra. Vira água de todas.
Hoje, respiro de olhos fechados. Junto todas as forças, todas as espadas e aguento até dez vezes o peso de formiga para carregar no ombro você e todo o peso da sua gaiola.
Tô querendo levar seus tormentos, duas dores, varrer seus males. Tô querendo cessar sua tempestades, fazer virar águas passadas. Tô querendo o seu amanhã sem nuvens de poeira e com Raios de Sol.
Porque...tem gente que brilha
de corpo todo.
domingo, 13 de novembro de 2011
Em alto mar
Tem vezes que só uma frase quer ser escrita. Uma frase simples, rápida, límpida, inocente.
Só que, um turbilhão de palavras, letras desordenadas surgem, corrompidas. Palavras atrapalhadas, deturpam e eu não consigo contê-las.
É como abrir uma janela no porão de um navio esquecendo que se está em alto mar. Depois que a água inunda e preenche todo os espaços, não tem mais como impedir.
É ir nadando, se deixando afogar.
É "morrer de olhos abertos".
Só que, um turbilhão de palavras, letras desordenadas surgem, corrompidas. Palavras atrapalhadas, deturpam e eu não consigo contê-las.
É como abrir uma janela no porão de um navio esquecendo que se está em alto mar. Depois que a água inunda e preenche todo os espaços, não tem mais como impedir.
É ir nadando, se deixando afogar.
É "morrer de olhos abertos".
sábado, 5 de novembro de 2011
Tem gente que brilha.
De longe a gente vê. Para tudo. Passa, brilha e atraí o olhar.
Olhar acompanha que nem véu de noiva. Meio arrastado, grudado, leve.
Aí a gente que brilha passa. Vai embora.
O olho que antes não piscava meio morto aberto, pisca tentando voltar a vida.
Uma parte dele volta. A outra continua acompanhado Raios de Sol dentro de si.
Gente que brilha marca, gruda,
leva na luz a leveza de uma manhã.
De longe a gente vê. Para tudo. Passa, brilha e atraí o olhar.
Olhar acompanha que nem véu de noiva. Meio arrastado, grudado, leve.
Aí a gente que brilha passa. Vai embora.
O olho que antes não piscava meio morto aberto, pisca tentando voltar a vida.
Uma parte dele volta. A outra continua acompanhado Raios de Sol dentro de si.
Gente que brilha marca, gruda,
leva na luz a leveza de uma manhã.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Enzimando cores

Se eu fosse cega, iria querer provar tudo. Colocar tudo na boca e a boca em tudo.
Passar a língua, engolir, enzimar, digerir. O gosto das coisas na cegueira.
Se eu fosse cega, iria querer, com o paladar, sentir todas as cores. Experimentar o claro, o escuro.
Sabor de azul na cegueira, sabor de vento.
Sabor de branco na cegueira, sabor de algodão.
Sabor de cinza na cegueira, sabor de poeira.
Na minha cegueira de estômago, todas as cores digeridas viram uma só. E, depois de me cansar delas, o vômito de cores sairia garganta afora.
E, de estômago vazio na cegueira, eu estaria pronta para novos sabores.
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